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POR QUÊ?!

Via de regra, é sempre assim no fim:
A pergunta ficando sem resposta…
A frase e o amor terminam sem proposta,
Senão calar tudo entre si e mim.

Parece-me bem típico, por fim,
Repetir a pergunta a quem se gosta
E entender no silêncio alguma aposta
Ou que essas coisas sejam mesmo assim.

Isolada no fim ou interjeição,
A pergunta me queima o coração
E a mente de vazio se povoa.

Aliás, só o silêncio reticente
Responde essa pergunta para a gente,
Feito o vento que pelo abismo ecoa.

Betim — 06 12 2020

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Photo by Matthew Henry on Unsplash

ESQUIZOIDE

Tudo lhe parecia indiferente;
Mesmo os altos e baixos pela vida…
Insensibilidade desmedida
Diante do que se passa à sua frente.

Já totalmente ausente do presente,
De qualquer emergência se invalida,
Enquanto sua estrada s’encomprida
Por sob os passos dados tão-somente.

Em seu olhar estúpido, a apatia
Nem mesmo de perigos o desvia,
Como sequer a morte lhe importasse.

Aborrecido assim dos seus iguais,
Não chora nem sorri de nada mais,
Feito cristal que enfim s’espedaçasse.

Betim — 10 10 2020

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Photo by Pablo Merchán Montes on Unsplash

CASA DE REPASTO

Fosse d’olhos abertos eu veria
Ainda alguma luz impercebida,
Em vez de lamentar-me sem saída,
Enquanto engulo a sopa quase fria.

Talvez meus companheiros de agonia,
Com chistes temperando a dura vida,
Assim como a pimenta à má comida
Buscasse eu despistar sensaboria…

No caldo restaurante nossas almas,
Mais do que nossos corpos, alimento
Adquirem ao altercar vaias e palmas.

É, com efeito, algum divertimento,
Que deixa as noites longas menos calmas
Para a morte enganar mais um momento.

Betim — 09 11 1999

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Photo by Pineapple Supply Co. on Unsplash

NÃO MORRO DE AMORES

Um tipo muito bem apessoado,
D’aqueles que acompanham bem as modas.
Circula nos salões das altas rodas,
Afetando-se ao extremo refinado.

Passa ainda por muito conversado
Ao se infiltrar alheio em ricas bodas
E após correr em flerte às moças todas
Com ares de galã enamorado…

Cumprimento-o de longe quando o vejo
E não lhe dou assunto no gracejo
Que esse infeliz me faz todas as vezes.

Suporto-lhe a figura, em todo caso,
Como se fosse o cúmulo do atraso
Que me desentretém d’outros reveses.

Betim — 07 12 2022

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Photo by Jaime Spaniol on Unsplash

VIVENDO E APRENDENDO

Se nada ensina mais do que as derrotas
Que ao longo d’uma vida sofrerás,
Tu, mais do que vencendo, lograrás
Quando com entusiasmo te devotas.

Debalde é cobiçar coisas remotas.
Visto que, quem co’a luta só se apraz
A não perder a guerra, perde a paz…
Deixando só ruínas sob as botas!

Prepara-te para a paz, tu que labutas!
Pois antes os labores do que as lutas
Elevarão troféus por tuas mãos.

Sim, “vivendo e aprendendo”, hás-de dizer
Quando alguma verdade aparecer,
E enfim prevaleceres sobre os vãos!

Betim — 05 12 2022

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CÂNDIDA

Nada turve os teus olhos furta-cores,
De cuja iridescência me avassalo.
Tampouco lhes surpreenda algum abalo
Em vista de desditas ou temores.

Guarda-os ainda alheios de rancores
Em suave beatitude como se um halo
Reluzissem, silentes, ao regalo
De quem, como eu, derrama-te louvores.

Haja um pintor de gênio para ainda
Futuras gerações terem-te a linda
Visão dos olhos qu’eu agora tenho.

Pois seja pelos séculos lembrada
A paz de tua lúcida mirada
Para t’eternizar com arte e engenho.

Belo Horizonte — 04 12 2022

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Photo by Earl Wilcox on Unsplash

FLOR, MINHA FLOR

Minha flor, qu’eu te colha com carinhos…
Quando, da espera ao encontro, incontida,
Me reténs na infindável despedida,
Como fosse eu partir por descaminhos…!

Não te anseies d’alheios burburinhos,
Tampouco haja outra lágrima vertida…
Estava escrito amarmo-nos p’la vida
Entre os versos de antigos pergaminhos.

Fomos, que nem os lírios vicejantes,
Em meio a borboletas, dois amantes:
No juncal, orvalhamo-nos n’um beijo.

Esteja o nosso amor eternamente
A luz do teu encanto florescente,
Nos corações, oh flor do meu desejo…

Belo Horizonte — 12 09 1996

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EU POR MIM MESMO

Eu nunca banqueteio com ricaços;
Não os frequento nem os acompanho!
O fosso entre mim e eles é tamanho,
Que ainda desconheço seus cansaços.

Arquiteto de espaços bem escassos,
Não lhes servi sequer a lhes dar ganho…
Visto como mesquinho e até tacanho,
Passei por puritano entre devassos!

Também nas letras fui incompreendido
Pelos donos das artes que, mecenas,
Se creem de gosto mais esclarecido.

Talvez minhas ideias, por pequenas,
A eles não interessem… Ou esquecido,
Sequer lhes seja ouvido nas arenas…

Belo Horizonte — 04 12 2022

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Photo by Arn Dela Cruz on Unsplash

MADEIRAMES

Esqueletos de pisos ou telhados,
As peças de madeira paraju
Enfileiradas sobre um murundu
Ao batuque dos pregos martelados.

Algo grande há-de sair d’estes estrados,
Pondo afinal os sonhos a olho nu!
Enquanto em treliçados de bambu
Se oculta feito pele aos vão forrados.

Projetos se revelam no canteiro,
Saindo do papel para a realidade
Em pau, em pedra, em aço, em pó e areia.

Estruturas das mãos do carpinteiro
Erguidas na paisagem da cidade,
Enfim moradas feitas de madeira.

Betim — 03 12 2022

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Photo by Joseph Barrientos on Unsplash

CABOTAGEM

Costear as tuas curvas desejadas
Sem nunca me afastar por mar aberto.
Assim vou navegando a vento incerto
E sob imensas noites estreladas.

De longe, elevações alcantiladas,
Seus seios no peito descoberto.
Após, descendo ao púbis, um deserto
Onde praias s’estendem encantadas.

Dias de sol e lua sobre o mar
Com teu corpo moreno para amar
Na exploração de tuas coxas nuas.

Assim quero lembrar sempre de ti:
Beleza que do mar eu conheci;
Prazer que à flor da pele me insinuas…

Ubatuba — 20 12 1996

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RicardoC

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta eu deixo para o leitor ponderar.